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Lições de Santa Maria - Preparação para emergências

José Lopes
10/02/2013

 

Reações normais durante emergências

As reações das pessoas perante um evento inesperado são muito diversas. Projetos e treinamentos adequadamente desenhados ajudam a diminuir a chance de erros decorrente da variabilidade dos comportamentos nas situações de emergências e a melhorar as reações das pessoas. O desastre ocorrido na boate Kiss na cidade de Santa Maria no RS, em um local que na verdade deveria ser considerado como um “espaço confinado”, poderia ter sido evitado. Mas mesmo que ocorresse, poderia ter sido menos traumático. Muitas vítimas poderiam ter se salvado.

Isto faz lembrar uma fala interessante de um grande herói norte-americano.

“Todo homem deveria ser capaz de ser mandado para fora de casa nu, sem nada com ele. No final do dia, o homem deveria estar vestido e alimentado. Ao final da semana, deveria possuir um cavalo. No final do ano, ele deveria ter um negócio e uma conta de poupança”.

 Pensava assim Rick Rescorla, herói no Vietnam (1965). Ele previu o primeiro atentado a bomba no WTC e também possíveis ataques com aviões. Por isto, ensinou aos empregados da Morgan Stanley a se salvarem. Quando a torre do World Trade Center desabou em 11/09, apenas treze colegas da Morgan Stanley – incluindo Rescorla e quatro de seus funcionários da segurança – estavam lá dentro. Rescorla retirou antes outros 2687 em 20 andares, que sobreviveram. Amanda Ripley conta essa história no seu brilhante livro “Impensável – Como e por que as pessoas sobrevivem a desastres”. Um livro obrigatório para quem lida com planos de emergências. Aconselhável para quem anda de avião ou se aventura em cruzeiros em transatlânticos, como o que há algum tempo adernou na costa da Itália.

Você que mora ou trabalha em um edifício, já tentou procurar de olhos fechados a porta no seu andar que dá acesso à escada de emergência? Tem praticado algumas vezes por ano descer a escada de emergência? Ao embarcar em um avião, você conta as fileiras a frente ou atrás da sua, até a saída de emergência? Você acha que vai enxergar algo dentro de um avião superlotado de fumaça?

A maioria não se prepara para emergências. Há pouco tempo algumas pessoas que trabalhavam em um grande edifício no centro do Rio de Janeiro resolveram descer do vigésimo andar para simular uma evacuação. Chegaram até o térreo mas não conseguiram acessar o saguão e sair do prédio: a última porta estava fechada a chave. Motivo: os porteiros não permitiam que estranhos acessassem os andares pela escada de emergência.

Quando observamos uma situação de emergência e giramos o relógio ao contrário, encontramos um evento potencialmente grave. Voltamos mais um pouco no tempo e encontramos comportamentos inadequados, em muitos casos por baixa percepção dos riscos envolvidos. Há quem sustente que todos nós decidimos aceitar um determinado nível de risco para mantermos certo nível de conforto e que o risco zero não existe, pois risco zero significa ganho zero. Arriscar-se faz parte da natureza humana. Arriscar-se tem a ver com a vontade de ganhar algo. Parafraseando Amanda, muitas pessoas sistematicamente flertam desavergonhadamente com os riscos. Muito deste comportamento tem a ver às vezes com algo que denominamos de percepção dos riscos.

Percepção dos riscos

A percepção dos riscos é um dos fatores humanos que mais impactam na vida das pessoas e é considerado em muitos casos a raiz dos acidentes. No caso do desastre em Santa Maria diversas pessoas não perceberam o risco na noite da tragédia e muitas outras antes do incêndio, ao liberarem algo absurdamente projetado e construído. É possível modificar o comportamento das pessoas, para que posicionem adequadamente o seu nível aceito para os riscos que correm no cotidiano? Sabemos que cada pessoa dá o seu significado para um determinado risco, independente do que outras pessoas definam, mesmo sendo especialistas no assunto. O significado do risco é intimamente ligado a duas variáveis importantes: a gravidade do incidente e a sua probabilidade de ocorrência. Mas o cérebro se preocupa muito pouco com a probabilidade, como argumenta Amanda Ripley.  

Entre as fontes que usamos para aceitar ou não um determinado risco, estão as nossas experiências passadas, ou seja, nossos traumas pessoais vividos e que estão “vincados no cérebro”. Casa arrombada: tranca de ferro, diz o dito popular. Já estamos assistindo uma avalanche de ações em vários lugares no Brasil. A seguir, usamos a nossa imaginação sobre a extensão dos danos que podemos esperar. Eu posso achar que não ter rota de fuga pode me sair caro e você pode achar que chegar a este ponto é impensável. Vamos nos proteger de formas diferentes, com certeza, em função das diferenças de crenças sobre os riscos. Por último, consideramos o quanto nos achamos autossuficientes e no controle, ou seja, o nosso julgamento sobre o poder que temos para lidar com determinada situação. A autossuficiência pode estar relacionada, e muitas vez vezes está, com a experiência bem sucedida no enfrentamento dos riscos. “Eu trabalho há 20 anos deste jeito e nunca ocorreu nada comigo”. Ouvimos frases como esta frequentemente. Algumas pessoas perto do palco saíram logo e se salvaram. Algumas mais perto da saída se deram conta muito tarde.

Na Avenida Presidente Vargas no Rio de Janeiro, na altura da Candelária, há 16 pistas para os veículos. De quatro em quatro pistas há um semáforo. Dificilmente se consegue sincronizar todos os quatro semáforos abertos para se atravessar caminhando pela faixa de segurança. Mesmo sendo possível, o vai e vem das pessoas que lutam para não se chocarem na faixa de pedestre, torna lenta a travessia da avenida. Um ou dois semáforos invariavelmente fecha durante a maratona do cruzamento. Algumas pessoas param e esperam novamente o sinal abrir, mas a maioria continua navegando entre os ônibus e carros. Podem ser pessoas que nunca foram atropeladas, mas que com certeza conhecem as consequências de uma colisão com um veículo. O que pesa, contudo, é a impressão que elas têm sobre o autocontrole e a autossuficiência. Elas consideram que vão superar o desafio. As experiências passadas de sucesso no ziguezague também é um fator que estimula a tomada do risco.

Desenvolvendo a percepção dos riscos

É possível desenvolver a percepção dos riscos a partir das três fontes da percepção citadas acima. Dentre elas o mais difícil, porém, reside em trabalhar a supervalorização que a pessoa atribui às suas aptidões para lidar com um determinado cenário de risco. Existem várias soluções, uma delas é desenvolver a cultura do cuidado mútuo.

A educação e aprendizagem são o alicerce para o conhecimento dos riscos. Mas isto não chega. Às vezes o nosso alarme interno não funciona e avançamos o sinal mesmo conhecendo o risco. Muitos ativadores podem surgir, bloqueando nossas ações de recuo, tornando menores os “esquecidos” os nossos medos. Vale pena lembrar aquela mãe que colocou literalmente a mão na boca de um jacaré para retirar o seu filho que seria engolido; ou o pai que se jogou em uma represa para salvar o filho, passando ambos agarrados por uma tubulação de drenagem, salvos e felizes. Por outro lado, precisamos considerar que existem pessoas que literalmente surtam numa situação de alta adrenalina. Ou seja, às vezes avançamos o sinal ou às vezes ficamos paralisados. Como ocorreu com muitas pessoas no evento das torres gêmeas no WTC. É aí que entra em ação a retaguarda qualificada (às vezes chamada de herói ou anjo-da-guarda), ou pelo menos deveria entrar.

Amanda Ripley perguntava aos heróis que entrevistou e que se envolveram em situações de emergência: - o que você tinha medo que acontecesse se você não tivesse feito o que fez? Convidamos o leitor a pensar sobre isto. O quanto é importante ajudarmos outras pessoas a se prepararem para situações impensáveis. Podemos exercitar em ambientes do cotidiano, como no trânsito e em outros tantos lugares públicos como a boate Kiss. Somos todos em algum momento coadjuvantes em muitas cenas que podem se tornar incidentes impensáveis.

Na véspera de um Natal há poucos anos, um dono de casa preocupado com uma goteira no telhado subiu em uma escada para consertar o vazamento antes dos convidados chegarem. Desequilibrou-se e caiu sobre um vaso. O vaso quebrou e um caco cortou a artéria femoral. Ele morreu antes do socorro chegar. Este é um típico cenário impensável. Algo que não precisaria ocorrer se um participante na cena (quase sempre existe um) se manifestasse vigorosamente. Rick Rescorla subia em uma mesa e gritava com os funcionários, às vezes ameaçando tirar a roupa, para que todos participassem dos simulados de forma responsável e séria.

 

Conclusão

Preparar-se para emergências não é simples. Requer expertise e muita dedicação. Na hora do evento, nem tudo dá certo, mas o planejamento e os simulados ajudam a minimizar as falhas. Rick Rescorla tentou, mas não conseguiu mudar a empresa de endereço, mas pelo menos conseguiu aprovação para os simulados. Fazia evacuações a cada três meses no WTC, na sua empresa. Os exercícios foram recompensados. Hoje há um monumento em sua memória.

Uma extraordinária recompensa pode surgir do apoio mútuo, quando uma pessoa ajuda a outra a ajustar melhor seu nível de risco aceitável; a colocar o cinto de segurança no banco de traz no carro, a colocar seu colete salva-vidas e simular uma evacuação no navio, a sair de uma boate quando riscos ficam mais evidentes, mesmo que isto possa significar algo em princípio impensável.

 

Eng. Dr. José Luiz Lopes Alves

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