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A cura pode ser pior que a doença. A tragédia da seleção brasileira.

José Lopes
15/07/2014

A cura pode ser pior que a doença

A tragédia da seleção brasileira

É necessário entender que a aproximação para o ótimo é, segundo esta lei de sistemas, feita com acertos e erros. Às vezes a dose fornecida é alta demais e é imperativo corrigir. Às vezes o foco da cura é errado e é importante refletir bem antes de dar o remédio. Esta lei é base dos ciclos de PDCA que existem (também) para evitar exageros nos processos de melhorias e mudanças.

Antes de falar sobre o fiasco da seleção brasileira sob esta perspectiva – enquanto o assunto ferve e milhões dão suas opiniões - vamos mostrar alguns exemplos que explicam este postulado sistêmico, nos domínios da segurança e da confiabilidade.

Por que programas de segurança comportamentais centrados na força de trabalho – não incluindo as lideranças – não funcionam e tendem a piorar tudo? Porque os operadores da linha de frente percebem que o único comportamento errado considerado é o deles. Nos bastidores a insatisfação toma conta. Principalmente quando os funcionários veem um líder no campo sem os equipamentos de segurança ou manifestando algum outro comportamento de risco. Percebem que existe discriminação e isto detona o programa comportamental. Dirigentes que decidem desta forma erram o foco e o destino do remédio, não reconhecendo onde a doença real se manifesta.

O processo de aprendizagem nas organizações também sofre com esta lei. Por exemplo, suspender todos os treinamentos para reduzir custos não é raro ocorrer. É um remédio que normalmente não resolve e ainda piora o momento da organização. O inverso também é verdadeiro: tentar tirar o atraso dos treinamentos em curto período de tempo, fazendo com que as pessoas não saiam das salas de aula durante semanas ou meses provoca desgastes, treinamentos ineficazes e perda de recursos. Outro exemplo vem dos acontecimentos indesejáveis. Quando ocorre um acidente numa planta de processo por vezes a saída encontrada é aumentar a vigilância do operador sobre não conformidades. Criam-se listas de verificações para tudo. A rotina do operador passa a ser verificar situações no campo, mesmo que elas não façam sentido com o tempo. Leituras de instrumentos são acumuladas por meses, sem nenhuma ou pouca utilidade. Os check list são preparados por algumas pessoas e outras os executam. Não raro os executantes sobem e descem escadas para cumprir uma lógica ergonomicamente errada, desgastando o operador e consumindo tempo desnecessário. A cura certa requer sempre o diagnóstico certo.

A confiabilidade também pode ser diminuída quando a dose do remédio é errada. Implantar por exemplo uma rotina de testes e inspeções numa cadência elevada demais aumenta a probabilidade de introduzir falhas nos sistemas durante os próprios testes. Não é o número de testes que melhora a confiabilidade, mas a qualidade e o correto intervalo especificado. Existe um intervalo ótimo que pode ser calculado e aperfeiçoado e depende da probabilidade e do tipo da falha, entre outras coisas.

A febre dos indicadores de performance – KPIs – tem a ver com esta lei também. Não possuir indicadores bons tem sido remediado por muitas organizações por dezenas de metros lineares de indicadores espalhados por dúzias de quadros de avisos. A maioria tem importância discutível. Muitos técnicos de segurança trabalham para gerar indicadores, gráficos, monitoramentos de variáveis não importantes, e ficam sem tempo para contribuir diretamente nas atividades da força de trabalho. Um exemplo de doença nova a partir de uma cura errada: recentemente em um canteiro de obras de uma grande construtora os EPIs passaram a ser geridos pela equipe de controle do orçamento, ao invés da equipe de segurança do site. A ideia era reduzir custos, pois se achava que a troca de EPIs usados era demasiada. Após algum tempo o que se percebia era falta de EPIs no campo ou operários com calças e luvas rasgadas, cintos de segurança desgastados e usados além da vida útil, além do confronto dos operários com os balconistas do almoxarifado dos EPIs quando solicitavam reposição.

E o que dizer da febre dos comitês. Teamwork não é sinônimo de comitê. Há o ditado que diz: quem quer algo não resolvido, deve criar um comitê ou uma comissão. Um dos remédios errados inventados foi a proliferação dos comitês internos para trabalhos em equipe, como única forma de resolver problemas. As pessoas passam o tempo todo em reuniões, sem poder e sem autoridade. É possível trabalhar em rede, sem criar estruturas organizacionais que burocratizam demasiadamente e não agregam valor. As CIPAS são comissões que sofrem muito para realizar a sua missão. Partem do quase zero a cada ano e produzem muito pouco em muitas organizações. Há exceções, é claro. Os casos positivos surgem quando a CIPA usa as redes internas e não se coloca como um comitê independente, apenas cobrando soluções.

Existem muitos mais exemplos que mostram o quanto o remédio escolhido ou o foco, tem piorado a doença. Mas vamos falar do assunto mais emergente, com o qual também podemos aprender algo. A Copa de 2014 e a seleção brasileira.

A seleção canarinho e o seu fiasco memorável (apenas um pequeno ensaio)

Aprendizagem é o objetivo principal das investigações, por isso mencionamos aqui algo tão triste para os brasileiros, amantes do futebol. Uma breve abordagem para o desastre na copa sem querer logicamente esgotar o assunto, pois é complexo demais.

A consideração é sobre a questão da motivação. É indiscutível que o medo da falta de adesão ao clima da copa era muito grande. Movimentos populares contra o evento, devido questões sociais, econômicas, politicas, etc. pesavam nos ombros da mídia e dos empreendedores. Poderia ser um fracasso estrondoso. Os empresários então resolveram investir pesadamente no emocional global, incluindo a emoção dos jogadores. Uma rede de televisão chegou a produzir matérias contando a cada dia a vida de um dos jogadores, como sendo um herói nacional, narrando de forma emotiva o passo a passo do atleta. Tudo foi feito para provocar forte emoção. E conseguiram. Entrevistas com os atletas mostravam isto. Torcedores deficientes foram levados ao ambiente da seleção para “tocar o coração dos atletas”. O capitão do time sentou e chorou, afastado do grupo nas quartas de final. Na semifinal até a camisa 10 veio a campo num ato sentimental inacreditável. Neste jogo os atletas pareciam estar em um amistoso, cumprimentando efusivamente os adversários no corredor. Para os alemães a entrada era para uma arena. Os brasileiros entraram comovidos, emotivos, inibidos e apagaram após o primeiro gol. O apagão alegado pelo técnico foi um sintoma claro da excessiva emoção em campo. Enquanto adrenalina movia os alemães, provavelmente dopamina banhava o cérebro dos brasileiros. Eles simplesmente travaram pelo excesso do remédio. Afogaram-se nas lágrimas. Em suma, aplicaram demasiadamente remédios para resolver a falta de motivação. Exageraram e muito. Lembremos das olimpíadas de Pequim. Lá se noticiou haver um psicólogo para cada atleta chinês. Quando nos treinos o “EU atleta” dava lugar para qualquer “outro EU”, o lado emocional, lembrando da família e dos seus problemas particulares, a terapia de guerra entrava em cena, retirava o atleta e fazia sumir o eu-não-atleta numa lavagem cerebral eficaz e rápida, com musico terapia, cromo terapia, etc. A equipe de atletas não sorria, não chorava, apenas disputava completamente focada. A única emoção permitida era a fúria para vencer. Ao contrário nos campos de treinamentos brasileiros, a mídia – que necessitava do retorno do investimento – entrevistava cada jogador de forma a inundá-lo de emoções, com depoimentos da família, amigos, etc. O pagode soava alto e sempre que possível. O espetáculo não envolvia drama, apenas poesia.

Resumindo, escolher bem e dosar corretamente o remédio é de extrema importância para sanar as doenças em qualquer campo. É preciso perceber os sintomas que aparecem com os excessos e corrigir a tempo.

 

Jose Lopes

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joselopes@interface-hs.com.br

15/07/14